Do zero à IA
expectativas e resistências
Por mais incrível que pareça, a aceitação do 0 no conjunto dos números naturais no mundo ocidental foi um processo lento e gradual. Tendo surgido por volta dos séculos V e VI d.C na Índia, o zero chegou à Europa no século XIII com os árabes, e sofreu muitas resistências até seu uso ser incorporado e normalizado na nossa matemática diária. Diferentemente dos indianos, e sob influência do pensamento aristotélico, que não concebe existência para o não ser, demoramos imenso tempo até concordar com a existência de um número que representa o nada.
Em alguma medida, o que se passou com o zero no passado passa-se hoje com a inteligência artificial. De um lado, há muita esperança no seu potencial sentido revolucionário e, do outro, muito ceticismo e resistência em relação às consequências da sua integração à vida humana. De qualquer das maneiras, essa é uma discussão que deve ser feita com muito equilíbrio e sentido de responsabilidade. Discursos inflamados sobre o problema não nos conduzirão aos consensos necessários.
Em relação aos entusiastas da inteligência artificial, é bom que se diga que ela não será capaz de alterar o mais elementar fato da condição humana, a saber, a peculiaridade de sermos um animal laborans, ou seja, um tipo de ser que é eternamente dependente da produção e do atendimento das suas necessidades básicas de sobrevivência enquanto entidade biológica. Não importa o quanto evolua a inteligência artificial, ainda assim ela nunca nos libertará do fato de que somos seres vivos com necessidades muito concretas de sobrevivência, que, não necessariamente, virá da tecnologia.
No que diz respeito aos céticos e resistentes da inteligência artificial, é bom lembrar que, no passado, a fotografia foi “condenada” por roubar as almas das pessoas; o rádio foi, nos primórdios do século XX, duramente contestado porque iria favorecer a diminuição do interesse pela leitura; houve também quem se opusesse, aquando da sua invenção, a penicilina, fundamental ainda nos dias de hoje no combate às infeções bacterianas de toda a sorte; agora é sobre a IA que se fazem muitos exercícios de futurologia e sobre a qual se preveem os mais catastróficos resultados sociais decorrentes do seu uso.
O filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626), na sua teoria dos ídolos, afirma que um dos preconceitos humanos que impede o avanço do conhecimento entre os homens é a sua tendência em distorcer e interpretar a realidade a partir, e exclusivamente, das suas experiências individuais. O debate público, neste sentido, vira uma obscura arena de ideias mal fundamentadas, decorrentes da ignorância e dos preconceitos individuais.
Mais do que afirmações pouco fundamentadas e dogmáticas acerca da inteligência artificial e sobre as consequências do seu uso, é preciso refletir com seriedade, individual e coletiva, a respeito de algumas questões éticas e políticas relativas à IA que realmente importam, e que de uma maneira ou de outra “ameaçam” os interesses econômicos daqueles que fazem disso apenas uma mercadoria tecnológica: devemos limitar o desenvolvimento de IA que emulam os seres humanos? de quem é a responsabilidade de controlar o avanço do desenvolvimento de IA? cabe somente ao setor privado a regulação do desenvolvimento da IA? a IA coloca em risco a democracia e a vida social como um todo?
Enquanto não se buscar responder a essas e outras questões de modo honesto e responsável, é provável que continuemos a acreditar que a inteligência artificial ou é a salvadora e libertadora humana de todos os males; ou se continuará a acreditar que é uma séria ameaça à humanidade, como se pensou em relação ao zero na Europa medieval.


